O que faz um espaço público ser bem sucedido?

Um dos  temas que analisamos e pesquisamos durante o nosso trabalho com a ONG Project for Public Spaces (PPS) foi: o que faz um espaço público ser bem sucedido e outro não? Depois de avaliar milhares de espaços públicos pelo mundo, a PPS descobriu que os espaços públicos bem sucedidos têm quatro qualidades fundamentais:

1. ACESSÍVEL – Pessoas de todas as idades e condições físicas (com dificuldade de locomoção ou que usam cadeiras de rodas, por exemplo) conseguem chegar ao espaço e se locomover nele;

2. ATIVO – Oferece diferentes atividades e formas de as pessoas usarem o espaço;

3. CONFORTÁVEL – O espaço tem lugares para sentar, uma vista agradável e outros atributos que o tornem mais convidativos;

4. SOCIÁVEL – Um lugar onde as pessoas encontram amigos ou até conhecem novos amigos.

Segue abaixo um diagrama que serve como ferramenta para avaliar se o espaço público é bom:

Produzido por PPS e traduzido por Conexão Cultural e Bela Rua.

Produzido por PPS e traduzido por Conexão Cultural e Bela Rua.

 

Imagine que o círculo central no diagrama é um espaço público específico que você conhece: a esquina da rua, um parque, uma praça, etc. Você pode avaliar esse espaço de acordo com os quatro critérios do anel roxo. No anel azul estão uma série de aspectos intuitivos ou qualitativos para se julgar um lugar; o anel amarelo mostra os aspectos quantitativos que podem ser medidos através de estatísticas ou pesquisas.

Ótimos espaços públicos são aqueles onde as celebrações são realizadas, as trocas sociais e econômicas ocorrem, é o ponto de encontro entre amigos e onde as culturas se misturam. Eles são as “varandas” das nossas instituições públicas. Quando os espaços funcionam bem, eles servem como um palco para nossa vida pública.

 

ACESSO E CONEXÕES

Você pode avaliar o acesso de um lugar por suas conexões com os seus arredores, tanto visual como física. Um espaço público bem sucedido é fácil de chegar e ir embora; é visível tanto de longe quanto de perto. As ruas do entorno do espaço público também são importantes. Por exemplo, uma rua com diversas lojas e cafés é mais interessante e geralmente mais segura para caminhar, porque há presença de outras pessoas, em comparação a uma rua com grandes paredes em branco e lotes vazios. Espaços acessíveis têm alta rotatividade de estacionamentos e, idealmente, contam forte presença de transporte público.

Perguntas a serem consideradas:

  1. Você pode ver o espaço de uma distância considerável? Você vê o acontece dentro do espaço mesmo estando longe dele?
  2. Há uma boa conexão entre o espaço e os edifícios ao redor, ou o espaço é cercado por paredes brancas? As pessoas dos edifícios ao redor usam o espaço?
  3. As pessoas podem caminhar facilmente até o local? Por exemplo: elas têm que se “jogar” entre os carros em movimento para chegar ao lugar?
  4. As calçadas levam para as áreas adjacentes?
  5. O espaço é acessível para pessoas com necessidades especiais?
  6. As ruas e os caminhos do espaço levam as pessoas onde eles realmente querem ir?
  7. As pessoas podem usar uma variedade de opções de transporte – trem, ônibus, carro, bicicleta, etc. – para chegar ao local?
  8. Os semáforos estão convenientemente localizados próximos a destinos como bibliotecas, correios, entrada do parque/praça, etc.?

Exemplo: Union Square, em Nova York. – Intersecções para pedestres nas esquinas da praça, bom acesso para os prédios ao redor, fácil de caminhar e visível a longa distância.

Fonte: NYCDOT

Fonte: NYCDOT

 

CONFORTO E IMAGEM

Um espaço confortável e bonito, que tenha um visual agradável, é a chave para o seu sucesso. Conforto inclui percepções sobre segurança e limpeza, bem como a disponibilidade de lugares para sentar. A importância de dar às pessoas a opção de sentar-se onde eles querem é geralmente subestimada. As mulheres em particular são boas juízes no quesito conforto e imagem, pois elas tendem a ser mais exigentes sobre os espaços públicos que utilizam.

Perguntas a serem consideradas:

  1. A primeira impressão do espaço é positiva?
  2. Há mais mulheres do que homens?
  3. Existem lugares suficientes para sentar? São lugares convenientemente localizados? As pessoas têm uma escolha de lugares para sentar, seja no sol ou na sombra?
  4. São espaços limpos e sem lixo? Quem é responsável pela manutenção? O que eles fazem? Quando?
  5. A área é segura? Existe seguranças no espaço? Se assim, o que eles fazem? Quando eles estão de plantão?
  6. As pessoas estão tirando fotos? Existem muitas oportunidades de fotos disponíveis?
  7. Os carros dominam mais que os pedestres, impedindo esses de chegar ao local?

Exemplo: Jardim de Luxemburgo, Paris. – Visualmente bonito e agradável, com gramados e cadeiras móveis, que as pessoas podem posicionar onde preferir.

Foto: Jeniffer Heemann

Foto: Jeniffer Heemann

 

USOS E ATIVIDADES

Atividades são pilares básicos de construção de um lugar. Ter algo para fazer dá às pessoas uma razão para vir a um lugar e voltar. Quando não há nada para fazer, o espaço ficará vazio e geralmente significa que algo está errado.

Como avaliar a programação do espaço:

  1. Quanto mais atividades acontecendo, mais as pessoas têm a oportunidade de participar – bom sinal.
  2. Há um bom equilíbrio entre o número de homens e mulheres?
  3. Pessoas de diferentes idades estão usando o espaço (aposentados e pessoas com crianças pequenas podem usar um espaço durante o dia quando os outros estão trabalhando).
  4. O espaço é usado durante todo o dia.
  5. Um espaço que é usado por pessoas sozinhas e em grupos é melhor do que aqueles que são usados apenas por pessoas sozinhas. Isso significa que há lugares para as pessoas sentarem com os amigos, mais socialização, é mais divertido.
  6. O sucesso de um espaço depende do quão bem ele é gerenciado.

Perguntas a serem consideradas:

  1. As pessoas estão usando o espaço ou está vazio?
  2. É usado por pessoas de diferentes idades?
  3. As pessoas estão em grupos?
  4. Quantos tipos diferentes de atividades estão ocorrendo – pessoas andando, comendo, jogando beisebol, xadrez, relaxando, lendo?
  5. Quais as partes do espaço estão sendo utilizadas e quais não são?
  6. Há opções de coisas para fazer?
  7. Existe uma presença de gestão, ou você identifica que qualquer pessoa é responsável pelo espaço?

Exemplo: Projeto Ping Point, São Paulo. – Mesas gratuitas de ping pong em espaços públicos.

Foto: Letícia Godoy

Foto: Letícia Godoy

 

SOCIABILIDADE

Esse é um quesito difícil de conseguir em um espaço público, mas quando atingido, torna-se uma característica inconfundível. Quando as pessoas encontram os amigos, conhecem e cumprimentam os seus vizinhos, e se sentem confortáveis interagindo com estranhos, elas tendem a sentir um forte senso de lugar/pertencimento com espaço e o seu entorno.

Perguntas a serem consideradas:

  1. Este é um espaço que você escolheria para encontrar seus amigos? Existem outras pessoas no espaço encontrando amigos?
  2. As pessoas estão em grupos? Eles estão falando um com o outro?
  3. As pessoas parecem se conhecer, por nome ou de vista?
  4. Será que as pessoas trazem seus amigos e parentes para ver o lugar ou mostrar alguma de suas características com orgulho?
  5. As pessoas estão sorrindo? Será que as pessoas fazem contato visual com o outro?
  6. Será que as pessoas usam o local regularmente e por escolha própria?
  7. Existe uma mistura de idades e grupos étnicos que geralmente refletem a comunidade em geral?
  8. As pessoas tendem a recolher o lixo quando o veem?

Exemplo: Parques de Paris. – Servem como pontos de encontro entre amigos.

Foto: Paola Caiuby

Foto: Paola Caiuby

 

Texto de: Jeniffer Heemann e Paola Caiuby.

Este trabalho com a PPS é apoiado pelo Edital CONEXÃO CULTURA BRASIL Intercâmbios, da SECRETARIA DE ECONOMIA CRIATIVA (SEC) e MINISTÉRIO DA CULTURA.

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2 thoughts on “O que faz um espaço público ser bem sucedido?

  1. Pingback: 11 Princípios para criar espaços públicos. | Placemaking.org.br

  2. Silvia Tavares

    Na parte de conforto entra também conforto acústico, luminoso e térmico. Ninguém aproveita os espaços urbanos se o conforto fisiológico não estiver presente. Existem dimensões do conforto que são ‘invisíveis’ essas são as mais difíceis. Temos sorte no Brasil por causa do nosso clima na maior parte das regiões do país, mas no frio do sul e calor do norte (principalmente no centro do país), esse aspecto tem que ser levado em consideração.

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