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Placemaking, urbanismo e o futuro dos espaços públicos

Possivelmente a tendência mais forte do urbanismo contemporâneo é a busca e o resgate da escala humana perdida nos tempos do urbanismo moderno. Além de proporcionar cidades ‘caminháveis’ e espaços nos quais as pessoas gostam de estar, nos últimos anos o foco de ações urbanas relacionadas à adaptação às mudanças climáticas, resiliência, sustentabilidade, segurança, entre outros aspectos, tem se voltado para as necessidades da comunidade. Em outras palavras, soluções urbanas devem seguir uma abordagem de ‘baixo para cima’ (bottom up) ao invés de uma abordagem ‘de cima para baixo’ (top down)[i][ii]. Para que se obtenha sucesso nessas ações, nada melhor do que construir ‘lugares’ (placemaking) e evitar não-lugares (placelessness), já que é da natureza humana cuidar dos espaços quando de alguma maneira nos preocupamos com eles[iii].

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Re:START Container Mall (Christchurch, Nova Zelândia)

 

No clássico Place and Placelessness, Edward Relph[iv] identifica três componentes de lugar: o espaço físico, as atividades que nele acontecem e o significado que ele adquire. Relph enfatiza que desses três componentes provavelmente o mais difícil de ser compreendido é o significado e, ainda assim, ele é de vital importância. Significados levam tempo para se desenvolver e espaços precisam desse tempo para que se tornem lugares, como explica Tim Cresswell[v]:

“Espaço tem sido visto como uma distinção de lugar, como uma área sem significado (…). Quando seres humanos atribuem significado ao espaço, e de alguma maneira tornam-se conectados a ele (a atribuição de um nome é um exemplo), este espaço torna-se ‘lugar’. Apesar desse dualismo dos conceitos de espaço e lugar estar presente na geografia desde a década de 70, ele tem sido confundido com a ideia de espaço social – ou o espaço produzido pela interação social – o qual em muitos aspectos tem o mesmo papel de ‘lugar’.”

A diferença fundamental entre lugar e espaço social é que, desde que haja significado, o lugar existe sempre, com ou sem atividade social. Por outro lado, o espaço social só existe quando há interação social. Lugar é normalmente fruto de intervenções significativas na escala de desenho e até planejamento urbanos. Lugares precisam de conexões urbanas fortes e planejadas, precisam se tornar parte de cotidianos urbanos, precisam ter qualidades que as pessoas apreciem e então desenvolvam uma ligação especial com essas áreas, praças, cantos, sejam eles do tamanho que forem.

E é justamente nesse ponto em que placemaking torna-se ao mesmo tempo uma solução e um risco. Ativar espaços é muito importante, pois é fundamental que haja vida e vitalidade em espaços públicos. Mas da mesma maneira é importante que se perceba que, na grande maioria dos casos, a ativação de um espaço é necessária justamente porque o projeto urbano falhou. A ativação de espaços por evento é criação de espaço social, e muitas vezes quando o evento acaba, o espaço morre com ele. A criação de lugar, por outro lado, é mais profunda e permanente.

Re:START Container Mall (Christchurch, Nova Zelândia)

Re:START Container Mall (Christchurch, Nova Zelândia)

Para que se construa um lugar para a comunidade, ou um senso de lugarsense of place[vi] – é necessário que haja certa permanência, que se dê tempo à comunidade para que os significados desse lugar sejam desenvolvidos e apreendidos. Uma alternativa possível aos espaços efêmeros é o planejamento de atividades sociais por um período suficientemente longo, um espaço de tempo que sirva de âncora para que comunidade e autoridades locais percebam o valor da área, invistam nela e a tornem permanentemente viva. Senso de lugar[vii] refere-se ao que o espaço tem de único, que não é replicável, e cabe aos urbanistas entender quem são os usuários da cidade, como eles vivem, o que eles gostam de fazer, o que diferencia uma comunidade da outra, e traduzir esses aspectos em projetos urbanos eficazes e permanentes. Essas dimensões têm que ser incorporadas em políticas públicas e levadas em consideração desde os primeiros passos do planejamento e desenho urbanos (place-led development).

Por fim, placemaking deve ser pensado e abordado ao mesmo tempo como uma ideia abrangente e uma ferramenta prática para melhorar comunidades, cidades e regiões. Assim, ativação temporária de espaços pode e deve servir de laboratório e experimentação. Mas para que se os lugares vivam a longo prazo, o desenho e planejamento urbanos são fundamentais. Tentar ativar permanentemente uma área desconectada da malha urbana é infinitamente mais complicado do que um espaço que faz parte do dia a dia, do caminho para o trabalho, para o supermercado, a escola, ou a universidade. Por outro lado, se estivermos entendendo corretamente a mensagem e tirando proveito do laboratório de hoje, a ativação de espaços será cada vez menos necessária, pois teremos cada vez mais projetos urbanos bem sucedidos. Projetos efêmeros e de pequena escala são poderosos para que se teste soluções urbanas, mas eles não são a solução, ou um fim em si. Um impacto mais profundo em relação ao ‘conforto urbano’[viii], tornando os lugares permanentes, requer tanto desenho (em termos de qualidade do lugar) e planejamento urbano (usos e conexões, por exemplo). Fortes conexões e relações com o entorno onde estão inseridos, fachadas ativadas através de usos comerciais no primeiro piso e interações interior-exterior, acessos e trânsito, sol e controle de ventos, são alguns dos aspectos fundamentais para a consolidação de lugares. Placemakers, urbanistas e governantes precisam trabalhar juntos, testar e entender soluções, para então traduzí-las em projetos permanentes.

[i] Smit, B., Burton, I., Klein, R. T., & Wandel, J. (2000). An Anatomy of Adaptation to Climate Change and Variability. Climatic change, 45(1), 223-251. doi: 10.1023/A:1005661622966

[ii] Vallance, S., & Perkins, H. (2010). Is another city possible? Towards an urbanised sustainability. City, 14(4), 448-456. doi: 10.1080/13604813.2010.496217

[iii] Meyer, E. K. (2008). Sustaining beauty. The performance of appearance. Journal of Landscape Architecture, 3(1), 6-23. doi: 10.1080/18626033.2008.9723392

[iv] Relph, E (1970). Place and Placelessness. London, UK: Pion Ltd.

[v] Cresswell, T. (2004). Place: A Short Introduction. Oxford, UK: Wiley.

[vi] Tuan, Y.-F. (1977). Space and Place: The perspective of experience. Minneapolis, MN, USA: University of Minnesota Press.

[vii] idem

[viii] Conforto urbano combina aspectos da sociologia urbana e do conforto ambiental em espaços públicos. Essa abordagem se dá através das possibilidades de adaptação humana aos diversos microclimas urbanos como um produto cultural mais do que puramente uma fisiológico. Conforto urbano considera que, quando em espaços urbanos, seres humanos se adaptam ao microclima desde que haja razão para tal, e que essa razão varia de acordo com a cultura e a experiência do usuário. A teoria de conforto urbano foi o tema do doutorado da autora deste artigo na Lincoln University (Christchurch, Nova Zelândia)

 

Texto de: Silvia Tavares

Silvia é pesquisadora, brasileira e mora na Nova Zelândia. Ela entregou a tese de doutorado na Lincoln University em julho de 2014 e em seguida passou seis meses na Alemanha trabalhando como pesquisadora visitante no ILS (Research Institute for Regional and Urban Development). Silvia desenvolve pesquisa focada em conforto urbano, projeto e microclima urbanos, bem-estar, saúde pública e mudanças climáticas. Ela pode ser encontrada através do site http://silviatavares.com, e no twitter como @silgtavares.